Torres de celular invadem Brasília e geram controvérsias sobre
danos à saúde e valorização de imóveis, diz estudo da UnB
O Distrito Federal tem a maior concentração de telefones móveis por habitante do Brasil. São nada menos que 113 aparelhos para cada 100 pessoas, demanda que requer um número cada vez maior de torres e antenas. Em 2007 são 959 aparatos como esses, segundo dados de dezembro de 2007 da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A multiplicação delas na paisagem, entretanto, não ocorre sem levantar discussões, principalmente em relação à radiação não-ionizante e danos à saúde. A dissertação do mestre em Geografia Alexandre Resende Tofeti, defendida em julho de 2007, no entanto, estende o debate para o lado econômico. Será que as torres influenciam na valorização ou desvalorização de imóveis?
Partindo de um estudo exploratório e baseado nos aluguéis que as operadoras pagam para instalá-las em terrenos particulares, Tofeti verificou que proprietários do Lago Sul chegam a receber R$ 5 mil por mês para abrigar uma dessas estruturas. No Plano Piloto, um prédio residencial obtém R$ 12 mil por três antenas. Já em Santa Maria, a compensação financeira chega até R$ 800,00. A variação decorre do preço do m² em cada local.
RENDA - Além de obter uma nova fonte de receita, uma vez que as despesas de manutenção são da operadora, os donos podem investir na melhoria da residência. É o caso de um bloco da SQS 116, que decidiu empregar o dinheiro em benfeitorias, mas também poderia tê-lo direcionado às contas de água e luz, reduzindo as taxas de condomínio.
É necessário lembrar, no entanto, que a remuneração não é para qualquer um. Em primeiro lugar, as empresas só procuram terrenos particulares na impossibilidade de hospedar as torres em locais públicos. Mesmo assim, só cobiçam regiões de grande movimentação, e conseqüentemente, de demanda por sinal de telefonia celular.
Desta forma, a maior concentração de antenas está na Asa Sul e Asa Norte, Lago Sul e Lago Norte, Esplanada dos Ministérios, Setores Comerciais Norte e Sul, Setores Hoteleiros Norte e Sul e o Setor de Autarquias, que apresenta 44% das torres e antenas da cidade.
RESTRIÇÕES - Apesar de os atrativos financeiros apontarem para aumento no preço dos imóveis, o geógrafo faz algumas ressalvas. “O mercado também leva em consideração a lei da oferta e da procura, os serviços disponíveis e uma série de outros fatores, juntos, para definir quanto oferecer por um imóvel”.
Se existem motivos para crer na valorização, onde estariam prováveis perdas monetárias? Resposta: no medo da emissão eletromagnética proveniente das antenas, assim como da interferência na estética da paisagem. Tofeti verificou que o receio pode alongar o tempo de venda das moradias.
Curiosamente, ele descobriu também que moradores que recebem compensações das operadoras tendem a aceitar a presença das antenas apesar do temor. Mas essa situação muda de figura para quem é vizinho de uma torre em local público. “Em geral, essas pessoas se queixam, com receio da radiação não-ionizante”, diz.
TEMPOS MODERNOS - Para além de questões financeiras, o geógrafo chama a atenção para a tendência à “tecnificação da paisagem”, termo cunhado pelo estudioso Milton Santos. De acordo com esse pensamento, o espaço geográfico tem sido transformado cada vez mais de um meio natural para técnico. Isso quer dizer que a vegetação, os rios e os lagos deixam de impor limites ao homem quando este se sobrepujar à natureza por meio do produto do seu conhecimento em ciência e tecnologia.
Primeiro, foi com a infra-estrutura vinda dos sistemas de iluminação, água e esgoto e de transportes; e hoje, com os sistemas de transmissão de informações, seja com computadores, redes de fibra ótica, parabólicas ou satélites. Um sinal dos tempos modernos, ainda que o preço para ter mobilidade no espaço seja conviver com a floresta de aço.
CONTATO
Alexandre Resende Tofeti pelo e-mail tofeti@unb.br
Fonte: Agência UnB